A balada da saudade

 

 

Lamentais a vossa saudade.

Por ela, derramais sentidas lágrimas. E muitas vezes vos comportais como se para vós já não existisse o mundo; como se nada vos pudesse devolver o sorriso.

Entretanto, para que hoje exista a árvore, foi necessário que um dia fosse partido o fruto e à terra lançada a semente; assim, a vossa saudade de hoje tem origem na companhia de ontem.

De contrastes, sois feitos. Como, aliás, a própria Natureza. Pois a claridade do dia se perde na escuridão da noite; e dela renasce, na nova manhã. E ambos, o dia e a noite, são necessários para que possa existir a vida neste mundo.

Assim convosco acontece: em vosso coração, alternam-se o sofrimento e a felicidade. E se um vos dilacera a alma, a outra renova as vossas forças.

Porque a carícia da chuva, caindo sobre a terra rasgada pelo arado, faz com que brote a semente. E quem saberia dizer qual dos dois, o arado ou a chuva, é mais importante, para que se renove a vida?

Eu, entretanto, vos digo que ambos são igualmente necessários. Porque, assim como as entranhas maceradas da terra se tornam mais férteis, o vosso coração magoado torna-se mais receptivo à semente de uma nova esperança; e a chuva do tempo a fará brotar.

A vossa saudade de hoje, não é senão o vosso amor de ontem. E vos cabe escolher se quereis transformá-lo na solidão da ausência, ou na ternura das lembranças. Na tristeza da perda, ou na alegria do encontro.

Porque, é certo, ambos existem na saudade. E, assim como podeis escolher entre recordar uma rusga ou um beijo, podeis maldizer o destino que vos tirou o ser amado; ou abençoar o Universo, que um dia o trouxe a vós.

No primeiro caso, precisareis percorrer sós o restante do vosso caminho; e os espinhos da amargura serão o tapete cruel, que muito fará sangrar os vossos pés. No outro, os agradáveis ventos das doces lembranças suavemente conduzirão ao porto o vosso barco.

E eu vos digo, ainda: nada existe que seja definitivo. Pois a água evaporada, em chuva se transforma e sobre a terra volta a cair; como a flor tombada, que em adubo se tornou, volta a existir em nova flor. E o sol, que hoje aquece o vosso dia, é o mesmo que ontem se perdeu nas trevas da noite.

Para o Coração do Universo, convergem os nossos caminhos; por isto, voltaremos a encontrar todos aqueles que nos são verdadeiramente caros. E maior será a alegria do reencontro, se em nosso coração não abrigarmos a tristeza da separação.

E sim, o encantamento do Amor.

 

     

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