A felicidade e o sofrimento

 

 

 

 

 

Cultuais a Felicidade, no altar das vossas esperanças.

E, como fazeis a todos os deuses, a buscais onde ela não está. Pois
que vos acostumastes a procurar, ao vosso redor,  aquilo que só  em vós mesmos podereis encontrar.

Sois como peixes a buscar  o  Pai  na  água  que  os  cerca,  quando poderiam encontrá-Lo na Vida que pulsa em seus próprios corpos.

Ou como plantas que O  procuram  no  brilho  do  sol,  enquanto  as raízes transformam o solo na seiva que as nutre.

Dentre vós, muitos são aqueles que desejam presenciar um milagre.

E, entretanto, não o percebem no botão que se  transforma  em  flor; ou na vida que de uma  gota  se  forma,  no  ventre  da  mulher  que dorme ao seu lado.

E aqueles que assim fazem são os mesmos que se dizem sem fé.

Como  o  viajante  ingrato,  que  reclama  pela  falta  da lua  no  céu, enquanto as estrelas brilham para iluminar o seu caminho.

Sim:  acreditais  que  o  Coração  do  Universo  deva  satisfazer  aos vossos desejos. E não percebeis que,  em  todos os  momentos, Ele satisfaz às vossas necessidades.

Em verdade, eu vos digo que vos perdeis nas vossas inquietações e em vossos próprios medos. Pois  não  pode  aspirar  ao  encanto da bela paisagem  aquele que  teme  escalar  a  montanha;  como  não voará  o  pássaro, a  menos   que  encontre  coragem  para deixar  o ninho.

Fazeis da felicidade o vosso maior sonho. E temeis o sofrimento. Não percebeis, acaso, que é  preciso que o sol  se ponha, para que possais   desfrutar  do  encanto  da  lua?  E que ambos,  sol  e  lua, existem no mesmo céu, cada um a seu turno?

Eis  que  assim  também acontece  à Felicidade  e ao  Sofrimento: a
presença de uma  é a ausência do  outro, e não dura senão o breve tempo que possa transcorrer até o seu retorno.

É através dos sentimentos,  que ambos visitam o vosso coração. E a uma não podereis  receber, se ao outro  fechardes a porta.  Pois na raiz do sofrimento presente, existe uma felicidade passada.

Ocorre que a Felicidade e o  Sofrimento são como as  faces opostas  de uma mesma moeda. Enquanto  uma provê à vossa mesa, o outro aguarda à vossa porta; e decerto vos apresentará a conta do ilusório banquete.

E os vossos desejos, incensos com os quais envolveis  o vosso culto à Felicidade, são os mesmos que perfumam o Sofrimento. Pois, se a felicidade é um desejo realizado, outra coisa não é o sofrimento senão um desejo frustrado.

Guardai-vos, portanto, de cultuar a Felicidade. Aprendei, antes, a encontrá-la nas pequeninas coisas que vos cercam, como a carícia da brisa, o encanto da música, a beleza das flores e a pureza das crianças.
E aprendei a ver o seu brilho nos olhos do ser amado; a ouvir o seu som em cada gemido de paixão, a beber o seu mel em cada beijo de amor.

Assim as lembranças vos sustentarão quando, em nome da realidade, o sofrimento reclamar o seu quinhão das vossas almas.

E mais cedo a Felicidade retornará ao vosso coração...

 

     

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