Canto do amor demais

 

 

 

 

 

 

 

Deixa-me olhar nos teus olhos, como se neles pudesse encontrar um novo mundo. E decerto encontrarei, pois este é um dos milagres do Amor, que nos faz ver o mundo através dos olhos de quem se ama.

Deixa-me mergulhar na luz do teu sorriso, como se assim pudesse compensar a escuridão que às vezes se esconde em mim. E encontrar os caminhos que me possam levar àquele que desejo ser.

Deixa-me beber o som da tua voz, como se assim me pudesse embriagar e esquecer, por eternos instantes, a tristeza da solidão que ameaça devorar-me quando penso que te posso perder.

Eis que te elegi como meu sonho maior. E necessito segurar-me em tuas mãos, para que não me possa tragar a voragem da inquietude. Porque apenas a força de um sonho pode trazer paz à nossa alma.

Perco-me na música inquietante dos teus gemidos e sussurros, nas horas secretas em que o desejo se apossa de nós, unindo os nossos corpos e as nossas almas. E, no silêncio que se segue, percebo em cada fibra de meu ser a plenitude que nos envolve.

Encontro, em cada curva do teu corpo, uma nova estrada para a paixão que nos torna parte deste mundo. E na ternura de nossas mãos entrelaçadas descubro um mundo de paz e encantamento, que nos eleva ao coração do Universo.

Na música do teu sorriso, canta a minha própria alegria; que se esvai na cachoeira dolorosa do pranto, à primeira lágrima que escorre pelo teu rosto delicado. Àquele que demasiado ama, não pertencem as próprias emoções.

Entretanto, não esperes que eu te faça alguma poesia. Porque para mim a poesia já não existe, senão nos teus movimentos ou no instante mágico em que te aperto docemente contra o peito.

Nem me peças que te repita o meu amor a cada momento. Pois, se não o sabes descobrir no brilho dos meus olhos, na intensidade da minha paixão ou no carinho dos meus beijos, não é nas minhas palavras que o encontrarás.

Vê: a lua se levanta, enquanto se deita o sol. E, entretanto, nos poucos instantes em que se encontram no horizonte, o crepúsculo derrama sobre o mundo o seu encanto único, fruto das luzes que se misturam.

Porque é este o sagrado mistério do amor: cada um deve perder-se de si mesmo, para que ambos se encontrem na plenitude. E um não poderá seguir sobre os passos do outro, nesta estrada em que é preciso caminhar de mãos dadas.

Portanto, minha amada, não me perguntes sobre o futuro; dele, há de dispor o tempo. Nem indagues sobre o meu passado, que se perdeu no lago sem fim do esquecimento.

Deixa-me pensar que só existe o presente: o instante em que nos teus lábios colho um doce beijo, em teu corpo mergulho num prazer infinito e em tua alma encontro a metade esquecida de minha própria alma.

E deixa-me erguer, com todas as fibras do meu ser, um canto infinito de gratidão por te haver encontrado. Um canto intenso e pleno de Vida, que se reflita em cada estrela e reverbere junto ao próprio Coração do Universo.

O canto do amor demais.

 

     

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