A fábula da pérola

 

 

 

 

 

A beira mar, num fim de tarde, o velho e o moço.

A voz, já meio alquebrada pelo passar dos anos, quase se confundia com o suave marulhar das ondas mansas. E, naquele momento, era só o que existia ali: a voz experiente e os ouvidos da descoberta; a vontade de aprender, completando o desejo de ensinar. E o velho falava:

- A vida, meu filho, é como uma pesca de pérolas, daquelas que se faz em outros lugares longe daqui. Lá, os homens, mergulham bem fundo, em busca daquelas bolinhas que lhes garantem o sustento. Cada pessoa, mergulhando no mar da vida, é um pescador de pérolas, em busca da sua própria e reagindo, durante a pesca, de acordo com o seu modo de ser.

Há o mergulhador preguiçoso, que é o mais comum. Quando encontra uma pérola média, contenta-se com ela. Divide-a em mil pedaços, pra utilizar um em cada dia; e tenta satisfazer-se com uma vida mansa, embora de algumas privações. Tem, às vezes, o ímpeto de mergulhar novamente, em busca da sua verdadeira pérola; mas intimida-se ante os perigos do mar e prefere compensar a frustração com a procura de outras coisas, que não o satisfazem, mas ocupam o seu tempo. E a pérola que seria dele permanece enterrada no fundo do mar; e ele sente a sua falta.

Há o egoísta: o que quer, num mergulho único e que se torna permanente, descobrir a pérola sem defeitos. E vai atirando para os lados, todas as que encontra, obcecado pelo desejo de possuir a perfeita. Nessa busca indiscriminada, acaba confuso, atirando entre as outras aquela que seria a sua pérola, que volta a ficar no fundo do mar. E ele se angustia com a sua falta.

Há o sonhador, que idealiza uma pérola única. E a cada dia, jura que no seguinte, irá mergulhar, para encontrá-la. Teme, porém, não os perigos do mar, mas sim, que a pérola encontrada, não corresponda ao seu desejo; pois sente, confusamente, que nada pode existir tão perfeito, como um sonho. E se vai deixando ficar sem mergulhar, invejando os que o fazem. E se a noite, a luz do seu sonho afugenta a escuridão da cabana, talvez o sonhador sofra ainda mais que os outros, ao reconhecer que, na sua covardia, tem medo da própria ilusão.

E há aquele que, inconscientemente, se preocupa tanto com o mergulho que termina antepondo-o à pérola. Experimenta a temperatura da água, envolve-se em óleos para repelir tubarões, carrega uma bolsa acolchoada, para que a pérola não se estrague; e se vive a protestar contra as ondas que dificultam o seu mergulho. Não percebe que, assim, a pérola fica em segundo plano; pois os olhos ocupados em enxergar as pequenas rochas que atrapalham o percurso, não conseguem distinguir o seu brilho fugidio. E; enquanto ele sofre com as dificuldades do mergulho, a pérola continua enterrada na areis.

E há o prático: ignora a tepidez gostosa da água em seu corpo e vai direto à areia, colher pérolas. Não importa que possam pertencer a outros; nem a qualidade, nem o tamanho. Nada importa, pois todas serão usadas logo que saiam da água; e para ele será como se houvessem existido apenas, pelas vantagens que lhe puderam trazer. E, nessa colheita indiscriminada, não vê a sua própria pérola, que esperando por ele, permanece no fundo do mar. E, se não chega a sentir claramente a sua falta, também jamais saberá como seria bom possuí-la.

E há os que mergulham em dupla; e essa é a forma mais inteligente de mergulhar, e também a mais perigosa. Pois não é suficiente que um possa confiar no outro. É preciso algo muito mais difícil: que cada um deixe ao outro a procura da própria pérola, assim como busca, ele mesmo, a que lhe pertence; toda pessoa tem a sua pérola particular, que não serve para outra, que não pode ser dividida. Para que ambos se realizem na pesca, é necessário que cada um colha a sua; e a função de um é ajudar o outro na procura, sem desistir da sua própria. Caso se ponham a brigar por sua primazia, ambos perecerão; se quiserem dividir uma única pérola, ela não será suficiente para os dois. E se uma só permanecer enterrada na areia será como se nenhuma tivesse sido colhida.

Calou-se o velho. E o moço falou, pela primeira vez:

- Essa pérola, vovô, é a felicidade?

- Sim.

- Então todos os mergulhadores, isto é, os homens, são infelizes?

- Eu não diria isso. Prefiro dizer que todo homem tem momentos de felicidade. Veja: o preguiçoso é feliz quando tira o seu pedaço diário e pérola; o egoísta é feliz na sensação fugaz de ter encontrado a sua, no momento em que estende a mão para colher uma nova; o sonhador tem a ilusão de possuir a sua, todas as noites; o preocupado encontra uma migalha da sua nos cuidados que toma para procurá-la; o prático recebe o reflexo do sol na superfície das pérolas que a tire da água; e os que mergulham em dupla, usufruem não apenas a própria esperança, mas também a do parceiro.

- E qual dos mergulhadores estaria certo, em sua opinião?

- Todos estão certos, cada qual no seu jeito de ser. Eu gostaria de ter aprendido que o mais inteligente seria aquele que não se perdesse na procura da pérola, e aproveitasse o seu mergulho, para gozar a carícia das águas e descobrir as incontáveis belezas que existem no mar. Aquele que não tivesse medo, ou pressa, fazendo da pérola, não a obrigação da sua vida, mas a conseqüência natural do seu mergulho.

- Por que, vovô? Que tipo de mergulhador é você?

Pelo rosto do velho passou a sombra de um curioso sorriso, misto de esperança e resignação. E ele respondeu:

- Eu? Prefiro pensar que já passei da idade de procurar pérolas!

E, no silêncio que se fez, a Sabedoria e a Esperança mergulharam em suas diferentes cismas, contemplando o sol que se deitava no mar.

 

        

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