Oração do Governante

 

 

 

 

Sou apenas um homem.  

Assim, não sou melhor que os meus irmãos. Pois os frutos que ocupam o alto da árvore em nada diferem daqueles que crescem nos galhos mais baixos. 

Devo conservar a humildade, pois a presunção é a mãe do ridículo. E, quanto mais elevado eu me julgar, mais dolorosa será a queda do pedestal que me haja erigido. 

Possa eu conservar os antigos amigos.  

Porque me amam pelo que eu sou. Enquanto os bajuladores, que buscam apenas o que lhes posso oferecer, nada me podem dar além da traição que ocultam em suas almas. 

Devo desconfiar daqueles que sempre comigo concordam.  

Como homem que sou, não posso estar certo todo o tempo. E como poderei confiar em quem não confia em mim o suficiente, para apontar-me os meus erros? 

Preciso conservar a capacidade de ouvir. 

Assim como o mar não se contém numa única onda, não pode a Verdade falar por uma única boca. E não é sábio aquele que impõe o que pensa, mas sim o que aproveita as boas idéias. 

Que de mim se afaste a arrogância. 

E eu não deseje que todos tremam à minha passagem, mas que me apertem junto ao coração. Pois aquele que semeia o medo, há de colher o ódio reprimido. 

Preciso aprender que não são leis os meus desejos.  

E, para isto, basta olhar ao meu redor: antes do meu nascimento, já se alternavam os dias e as noites; como continuará a ser, depois da minha partida.  

Assim, que sejam sempre sábias as minhas determinações. Pois aquele que ordena o impossível, apenas faz nascer a desobediência; e dela surgirá o confronto. 

Sempre, devo estar aberto ao perdão. 

Pois a vingança reproduz a si mesma. E não sentimos o amargor dos seus frutos, senão quando chegam à nossa boca.  

Como jóia cintilante é o poder. 

E devo cuidar para que o seu brilho não ofusque os meus olhos. Pois não posso ser um cego, a guiar os meus irmãos; antes, mais longe do que eles preciso enxergar. Porque, se maiores são os meus direitos, são maiores as minhas obrigações. 

Dai-me, Senhor, a Vossa ajuda.  

Para que eu não me julgue igual a Vós. E seja, antes, um bom instrumento da Vossa vontade.  

Para que, ao governar os meus irmãos, eu não perca o governo sobre a minha própria pessoa. 

E possa conservar-me fiel ao meu verdadeiro Eu.

 

           

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