Oração do Pregador

 

 

 

 

Como não pode o mar oferecer água doce, ou a tamareira produzir um figo, ainda que único, nada poderei oferecer aos meus irmãos, senão o que trago dentro de mim. 

Assim, antes que lhes possa falar, é necessário que ouça o meu próprio íntimo. Oxalá tenha guardado os meus sonhos de menino, para que lhes possa devolver a esperança; e saiba aproveitar as desilusões da maturidade, para que não os lance em loucos devaneios. 

É grande a responsabilidade daquele cujas palavras são ouvidas.  

Porque as palavras de um homem não são apenas a expressão das suas idéias, mas sementes de idéias para os ouvintes.  

Assim, aquele que nada tenha a dizer mais sábio seria se calado ficasse; e oferecesse apenas o testemunho dos seus atos. Pois as nossas ações são mais expressivas que as nossas palavras.  

Que se cale, pois, a minha voz, quando me visitar a amargura; para que dentro de mim permaneça ela encerrada. E que as palavras fluam, quando me animar a felicidade, para que dela todos compartilhem. 

Que não seja a minha voz como o vento agressivo, que torna desolada a terra; mas como a brisa amiga, que faz a planta brotar. 

Permita o Pai que em mim exista a verdadeira paz, e que da minha boca brotem expressões da verdadeira sabedoria; para que eu as possa dividir com os meus irmãos.  

Como o beduíno, no deserto, reparte a sombra meiga e amiga das árvores que aformoseiam o oásis. Pois somos todos beduínos e é incessante a marcha da nossa caravana, como é única a nossa direção. 

Entre o raiar do dia e o cair da noite, atravessamos o deserto dos nossos próprios enganos, e o sono nos recupera para uma nova travessia; e haverá em cada uma um oásis de paz, para que possamos suportar a sede das frustrações. 

Que sejam, pois, as minhas palavras como a água que retempera, a brisa que refresca, a lua que faz sonhar, e as canções que fazem sentir. 

Para que eu seja digno de falar em nome do Pai.  

 

     

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